Sempre defendi neste espaço a ocupação de terras improdutivas, irregulares ou que são usadas para a exploração da dignidade alheia como instrumento de pressão popular. Quem acha que a propriedade privada está acima de qualquer coisa, procure outro blog. Mas em um momento em que coiotes no Congresso Nacional tentam criar uma CPI contra o MST para, entre outros objetivos, barrar a atualização dos índices de produtividade (o que faria com que as terras usadas para especulação fossem desapropriadas, tendo uma melhor destinação) dar munição aos conservadores da imprensa e aos caninos-congressistas soa fora de hora e desnecessário.
Porque quem tem acesso à opinião pública não vai ficar preocupado em se debruçar sobre os crimes cometidos pela empresa em questão e sim em colocar na mesa mais uma justificativa, ainda que infundada, para criticar a luta pela reforma agrária. As imagens dos pés de laranja derrubados têm ecoado na mídia da mesma forma que as mudas de eucalipto retiradas em uma ação do MST, anos atrás, no Rio Grande do Sul. Por mais que as presenças de ambas as plantações sejam irregulares, é difícil explicar para a maioria da população que a laranja, que é comida, teve culpa na história.
Agora, considerado isso, o ministro Guilherme Cassel (Desenvolvimento Agrário) e o presidente do Incra, Rolf Hackbart, se disseram chocados com a “grotesca” e “injustificável” ação. Não me lembro dos dois funcionários públicos usarem os mesmos termos para tratar da situação dos guaranis kaiowás no Mato Grosso do Sul, que no último mês sofreram ataques, tiveram acampamentos incendiados e foram baleados por proprietários rurais e seus capangas na região – mais um capítulo de uma longa história de negação de direitos. O mais interessante é que o próprio Incra considera a terra grilada, luta na justiça para recuperá-la e ninguém fala nada.
Dois pesos, duas medidas. Comportamento este também compartilhado por parte da imprensa. Destruir pés de laranja é crime inafiançavel, atirar em índio, não. De repente dá até medalha.
Leonardo Sakamoto jornalista.Cobriu a guerra pela independência em Timor Leste e a guerra civil angolana. É coordenador da ONG Repórter Brasil e seu representante na Comissão Nacional para a Erradicação do Trabalho Escravo (Conatrae.
visitem o blog dele: http://colunistas.ig.com.br/sakamoto/ e o site: http://www.reporterbrasil.com.br/
por Coletivo Catarse
1 -A imparciabilidade já é um ponto pacífico no universo da comunicação. Todo mundo tem um lado – ou mais de um – nenhum jornalista e muito menos algum veículo de comunicação são isentos. Não existe nenhum lado que informa exatamente aquilo que acontece. Mas isso não isenta nenhum comunicador a ser o mais responsável possível no seu trabalho e nem serve de argumento para a manipulação ou bizarras de contextualização de dados ou fatos. 2- Conhecer a realidade e interpretá-la depende, teoricamente, só do nosso senso crítico. A informação de um fato chega até nós e então o interpretamos. Simples assim? Nem tanto. Há um grave problema em como essa informação chega até nós. No Brasil não temos vários e plurais veículos de informação, não há vários lados. Os grandes meios de comunicação, em geral, apresentam uma visão ligada a classe média, neoliberal e, digamos, mais ‘direitista’. O problema não está no posicionamento assumido, afinal ninguém é imparcial mesmo. O problema é que ao ser ver nas capas das maiores revistas, dos jornais de maior circulação e nos programas de maior a audiência a mesma visão sobre determinado assunto, somos influenciados a pensar que eles estão falando a verdade e não aquilo que eles pensam sobre a realidade.
3- O MST é uma boa ilustração do que queremos dizer com este post. A grande mídia tem uma clara visão negativa sobre a atuação deste movimento. Bem, é o direito deles. Porém as pessoas que deveriam estar recebendo informações dos acertos ou das motivações desta organização, só fica sabendo dos ‘exageros’ e ‘violências’ dos ‘desocupados’ e ‘vagabundos’ que formam a base deste movimento. Na Televisão vemos os tratores que derrubaram os pés de laranjas da Cotrale, mas nenhum canal mostrou as irregularidades dos documentos de posse da propriedade e nem os processos movidos pelo Incra (Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária).
ouça as sonoras com o professor Max Vicente que comentou sobre a falta de políticas públicas em prol da democratização da comunicação.
e a Beatriz Barbosa, do coletivo Intervozes, que explicou porque é importante a regulamentação da comunicação.
A grande imprensa no último dia 05 de outubro alardeou a “invasão” de terra provocada por integrantes do MST. Em voos razantes a PM captou imagens de um trator cortanto pés de laranja. Como é de costume, a mídia apresenta os fatos sem uma necessária contextualização do problema com o intuito claro de colocar a opinião pública contra os movimentos sociais. Esses movimentos lutam pelo real desenvolvimento social do país frente ao grande crescimento econômico que aquece a conta corrente daqueles que estão no topo da escala social.
A região mostrada na imprensa, Aras, Agudos, Borebi, no centro-oeste do Estado de São Paulo, onde hoje a empresa Cutrale tem imensas plantações de laranja, tem sua história abafada pelos interesses dos grandes latifundiários brasileiros. Vamos a ela então.
No início do século XX o Governo Federal destinou naquela região mais de 50 mil hectares para a colonização italiana. No entanto, isso não foi possível pois os fazendeiros do café entendiam que essas terras para colonização italiana diminuiriam a oferta de trabalho barato nas plantações de café, e como é de costume, impediram que essas terras fossem destinadas para o fim proposto.
Com o passar do tempo esses 50 mil hectares foram sendo grilados por grandes empresas, principalmente madeireiras.Um pouco mais recente é a entrada da Cutrale nessa região através de terras griladas. Hoje a Cutrale mantém ali uma plantação de cerca de 4 mil hectares apenas de laranja. Só a título de exemplo, com esse número mais de 130 famílias poderiam estar assentadas e plantando alimentos necessários para a alimentação da população, já que não só de laranja vive o homem.
Essas terras da região centro-oeste são uma reinvidicação de mais de 15 anos do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra para que ela seja destinada a reforma agrária e contribua para a melhora do quadro social do país. Segundo o INCRA, orgão governamental que regula a reforma agrária, a invasão da Cutrale é ilegal e as terras deveriam ser devolvidas ao governo federal.
Mais de 350 famílias ocupam essa região como forma de pressão para que as terras do governo sejam destinadas à reforma agrária. Parece inconcebível que uma mega empresa, através de meios obscuros como é a grilagem, explore a terra apenas para lucro próprio sem ter pago nenhum centavo, enquanto milhares de famílias continuam na luta por um pedaço de terra agricultável.
Na região de Borebi alguns pés de laranja, entre os 4 mil hectares plantados, foram derrubados para que arroz, feijão, milho, batata pudessem ser plantados. Não nos esqueçamos nunca que a reforma agrária é imprescindível para a construção de um país realmente justo, democrático e menos desigual.
Enquanto o Brasil continuar com uma ditribuição fundiária quase feudal, os números midiáticos continuarão nos falando lindas mentiras e a realidade, duras verdades.
Lembrando de João Cabral de Melo Neto, pergunto: qual será a parte que cabe ao povo neste latifúndio chamado Brasil?
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